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15 de abril de 2012

Brasil por um neozelandês - Living in Brasil – going the other way

Desde que chegamos aqui, é sempre comum os neozelandeses nos perguntarem porque deixamos o Brasil. E aqueles que já passaram férias lá, custam a entender o que nos fez deixar de um país tão bonito, com espírito constante de festa, com um clima quente, para virmos morar nesta ilha longe de tudo. Acontece que passar férias no Brasil é bem diferente de viver lá. Até mesmo brasileiros que moram aqui e passam férias no Brasil acabam criando uma ilusão de que tudo por lá é maravilhoso. Aqueles que decidem voltar baseados nesta ilusão, normalmente se arrependem.




Assim, achei muito legal ter conversado com o Rod Halliday, que é um neozelandês com uma história bem diferente da maioria. Ele conheceu a namorada brasileira aqui, e quando ela decidiu voltar para o Brasil, ele decidiu acompanhá-la. Mais uma história de amor muito bonita!



Encontrei o Rod em uma festa de amigos comuns quando ele veio passear aqui durante a copa de rugby. Achei muito interessante ouvir a opinião de um Kiwi que realmente se mudou para o Brasil para viver lá. E, como já era de se esperar, viver no Brasil tem sido um grande desafio para ele.



Eu pedi para ele escrever um post para mim e ele gentilmente aceitou colaborar com meu blog. Abaixo o texto dele já traduzido para o português. Depois a versão original em inglês.



“Tendo nascido Kiwi e sendo criado como tal, que ama o rugby e a uma bebedeira de vez em quando, nunca imaginei que me encontraria com uma menina bonita brasileira e acabaria vivendo no Brasil. Mas quando o amor toma conta do seu coração você nunca sabe exatamente onde você vai acabar na vida. De todos os brasileiros que conheci na Nova Zelândia eu estimo que cerca de 80% deles pretendem ficar na Nova Zelândia e começar uma vida nova. Mas eu acabei conhecendo alguém que estava entre os outros 20% que não querem ficar longe do Brasil. Então, no ano passado, fizemos as malas e viemos para o Brasil para criar uma nova vida. Eu deixei para trás meu próprio negócio, uma profissão e, claro, meus amigos e família.



Vivemos aqui por mais de um ano em uma cidade linda do litoral em Santa Catarina, que tem um clima fantástico. Eu gosto de meu churrasco semanal e eu estou aprendendo um novo idioma, o que sempre foi um dos meus objetivos na vida. O português é uma língua difícil, mas estou melhorando, dia após dia. Com certeza, não há melhor lugar para aprender uma língua do que no próprio país em que ela é o primeiro idioma. Embora o começo de vida em qualquer país novo seja sempre difícil, há um monte de coisas aqui no Brasil que fazem esse processo mais difícil e às vezes incrivelmente frustrante.



A primeira meta ao chegar em qualquer país novo, é encontrar alguma renda através de um emprego. Chegar no Brasil sem um monte de dinheiro foi um grande erro para nós. Apesar de termos um apartamento para viver (muita sorte), você ainda precisa comer e pagar as contas e encontrar um emprego aqui acabou por ser muito difícil. Minha companheira é uma profissional qualificada da área de saúde e após a aplicação para vários cargos públicos com um salário de mais ou menos R$1200/mês, ela continua desempregada depois de um ano e não recebeu uma única carta ou e-mail vinda de qualquer empregador informando que ela não havia sido escolhida. Um emprego na iniciativa privada, perto da costa bonita de 'Bombinhas', teve 200 candidatos e estava pagando o salário mínimo. Ela não entendeu, e se decepcionou ainda mais, quando descobriu que teria que pagar R$100 pelo “privilégio” de fazer um exame de 3 horas em um domingo de manhã. Tentar ganhar dinheiro é incrívelmente difícil aqui e eu cheguei à conclusão de que o Brasil é muito mais um país sobre "quem você conhece” e não tanto sobre "o que você conhece", como é na Nova Zelândia. O salário mínimo aqui no Brasil é ridiculamente baixo e é um insulto, especialmente para aqueles que têm alguma formação. Na maioria dos casos, o salário mínimo só permite que uma pessoa possa sobreviver se ela viver com seus pais.



A maioria das coisas boas que aconteceram para nós desde que chegamos no Brasil surgiram como resultado de conexões familiares, amigos ou colegas de trabalho. O Brasil é como uma teia de aranha grande e complicada que conecta uma enorme gama de pessoas, mas que é impossível de ver ou compreender. Para conseguir um bom trabalho em uma empresa privada, você realmente precisa fazer parte da “teia” correta. E para conseguir um bom trabalho no setor público, você precisa para estar no topo dos 2% de pessoas intelectuais já que todos os cargos no setor público são baseados em Concursos que aparecem apenas para testar o intelecto e conhecimentos gerais, em oposição à experiência, conhecimento técnico, habilidade de tomada de decisão, habilidades interpessoais ou outros atributos-chave que pode fazer alguém mais apropriado para um trabalho mais do que uma pessoa com conhecimento puramente acadêmico.



Então, da minha experiência aqui, eu vejo a grande maioria dos jovens caindo em um buraco de desesperança. Isso é estranho porque no Brasil é dada uma enorme importância ao grau de formação da pessoa, até mais do que na Nova Zelândia, e há muitos profissionais altamente qualificados aqui. Mas aonde estão os postos de trabalho e onde está o salário que reflete as qualificações que muitas pessoas possuem é o que eu me pergunto.



Dada esta situação, o problema maciço de crimes violentos no Brasil começa a fazer algum sentido para mim. Sem emprego e sem um sistema de bem-estar para à população para atender as necessidades básicas, as pessoas com famílias que não podem ter alimentos para si ou para seus filhos, naturalmente, vão sair e roubar. Eu faria o mesmo se eu estivesse em uma situação desesperada e tivesse uma família com fome em casa? Provavelmente! É um instinto básico de sobrevivência e e de proteção à sua família e em tempos de desespero assim, a moral e a consciência social saem pela janela. Adicione a isso os traficantes que vendem drogas para essas pessoas sem esperança e você tem um grande problema social. Assim sendo, você tem sempre que ter cuidado no Brasil. Eu aprendi a estar sempre atento ao que acontece à minha volta e nunca baixar a guarda. Isto pode ser muito cansativo e é algo que eu não costumava precisar fazer.



Acima de tudo, o que mais me decepciona no Brasil são as histórias sem fim de corrupção. Todas as noites assistindo o Jornal Nacional, é sempre a mesma coisa. A maioria das notícias são cheias de histórias de crime e corrupção e, como Kiwi eu não posso tolerar a injustiça ou abuso de poder que é o que está acontecendo em uma escala inacreditável no Brasil. De políticos, à policiais e prefeito, a corrupção é ilimitada.



Dê poder ou responsabilidade a alguém, combinado com acesso ao dinheiro, e a tentação de abusar dessa posição é vergonhosamente alta. Infelizmente, este país está tomado pelo câncer da corrupção ao mais alto nível e que parece impossível de ser eliminado. É muito difícil para mim, ouvir histórias de crime de colarinho branco na casa dos milhões de reais sendo cometidos diariamente, quando todos ao meu redor são pessoas lutando para pagar contas ou colocar comida na mesa.



O Brasil tem tanto potencial com o seu vasto território e recursos naturais abundantes, como petróleo, gás, açúcar, feijão e café; e tem a capacidade inata de ganhar muito dinheiro vendendo estes produtos para o mundo. O Brasil não é como alguns outros países onde não há recursos naturais para o comércio. Aqui tem muita coisa para fazer muito dinheiro. Por isso, não posso aceitar comentários que ouço de que o Brasil é pobre, ou se referindo a outros países, por exemplo, a Europa, como sendo tão rica. O Brasil é rico. Há também um monte de terra não utilizada disponível para pasto ou a produção de alimentos que ainda tem que ser aproveitada e isso não inclui áreas ecologicamente importantes. Fiquei sabendo recentemente que apenas 20% de terra disponível no Brasil está sendo utilizada para agricultura. E mesmo sendo este o caso, a Brasil recentemente subiu para a sexta maior economia do mundo e agora está acima da Grã-Bretanha. Quando esta notícia chegou ao Brasil, as pessoas ficaram muito orgulhosas de seu país. E com razão. Mas, apesar do Brasil estar rapidamente se tornando uma potência econômica no mundo, a distribuição de sua riqueza é o onde as coisas vão muito mal. Para o brasileiro da classe média, a vida ainda é difícil, os salários são espantosamente baixos, eles trabalham longas horas e os indíces de violência são muito altos.



É comum ouvir as pessoas aqui reclamando sobre a corrupção entre os políticos, dos altos impostos e da falta de planejamento de infra-estrutura. Eu estava em um churrasco no último fim de semana com as colegas de faculdade da minha namorada, conversando com duas pessoas que eu nunca tinha conhecido e não demorou muito para elas expressarem sua frustração com o sistema aqui no Brasil. “Não votem para os políticos corruptos ", eles comentaram, “e virá outro grupo de reformistas promissores que muitas vezes vêem a mesma oportunidade de ouro para roubar". Depois de ouvir isso, eu sempre pergunto então qual é a solução para o Brasil . E a resposta é sempre a mesma. "Não tem solução". A cultura é arraigada no sistema. É como um câncer terminal. Você pode tentar operar e cortá-lo, mas ele simplesmente continua voltando. A melhor resposta que me foi dada até agora é que foram os colonizadores Portugueses, 500 anos atrás, que trouxeram a mentalidade da corrupção que instalou-se no sistema político que existe até hoje.



Esta mentalidade e atitude também pode explicar a minha observação de que o número de regras e leis que devem ser obedecidas no Brasil é diretamente proporcional à quantidade de poder e dinheiro que você tem. Quanto mais dinheiro você tem, mais problemas você pode resolver na conversa ou comprar uma “solução”. Eu percebi que no Brasil, um monte de coisas (e funcionários) estão à venda. O cara dirigindo a 150km/hr na BR101 ou o cara que tenta cortar a fila na loteria. É tudo a mesma coisa para mim. Classe social é predominante aqui e é tudo baseado em torno do poder e dinheiro. A arrogância desse tipo de pessoas faz meu sangue ferver. Na Nova Zelândia, alguém que age como se fosse o dono do lugar ou age como alguém que se acha melhor ou mais importante que os outros, é imediatamente “cortado”. Esta aversão dos neozelandeses à pessoas que “se acham”, é chamado de "tall poppy syndrome" e é visto como um aspecto negativo da cultura da Nova Zelândia porque é prejudicial para o crescimento pessoal e empresarial. Mas pelo menos isso ajuda a eliminar atitudes baseadas em classes sociais. Talvez o Brasil precisasse de uma dose disso.



Costumo olhar para fora da janela do nosso apartamento para a cidade agitada e fico imaginando como algumas indústrias, setores e sistemas realmente funcionam. Com tanta desorganização, demora e atraso no mundo dos negócios, a corrupção e desonestidade, de algum modo as coisas ainda acontecem. É um sistema único, que tem uma forma única e, muitas vezes caótica de funcionar. Isto é Brasil. Ame-o ou o odeie, é deste jeito que as coisas são e é provável que sejam por um tempo muito longo. Se o resto do mundo pode fazer negócios com um sistema como este é algo questionável. Mas estou certo de que o mundo vai encontrar um caminho. O Brasil é muito importante para ser ignorado. Quando cheguei no Brasil eu estava ciente de que o Brasil estava crescendo, e procurei por oportunidades de negócios. Eu gastei literalmente centenas de horas pesquisando várias possibilidades desde exportação de café à exportação de cerveja, mas eu cheguei sempre à mesma conclusão de que, como um gringo que não conhece ninguém aqui, é muito difícil. Há muita corrupção, incerteza e eu não acho que haja igualdade de condições, quando se trata de negócios aqui. Você tem que estar conectado e se manter fora do caminho dos 'big boys'. Achei impossível montar um modelo financeiro confiável de todos os custos e retornos. Havia muitas incertezas e incógnitas para mim para tentar alguma coisa, e nos negócios, são as "incógnitas" que irão destruí-lo. A única maneira que eu consideraria um negócio aqui é se eu pudesse encontrar uma pessoa bem relacionada em quem eu pudesse confiar 100%.



A grande maioria das pessoas aqui trabalham duro, muitas vezes fazendo longas horas e ganhando pouco. Mas, quando o trabalho termina, os brasileiros gostam de ver a família, socializar, tomar uma bebida e festar. Isto é o que eu gosto daqui. Os neozelandeses são um pouco “Ingleses” e um pouco chatos, enquanto que aqui parece que há mais brilho e vida nas pessoas. Talvez o calor tenha algo a ver com isso.



No geral, eu tenho a dizer que viver no Brasil é muito mais difícil do que eu pensava que seria. Se você está bem conectado com as pessoas em posições influentes e que têm dinheiro, a vida no Brasil pode ser muito boa, de fato. Se você não for, então boa sorte para você. Mas a experiência de viver aqui e entender a cultura da minha namorada tem sido muito boa para mim. Eu entendi agora de onde vêm muitas de suas idéias, atitudes e opiniões e isso nos ajudou a compreender melhor um ao outro.



Agora eu entendo porque ela nunca ficava animada sobre nada até que aquilo se tornasse real. É porque no Brasil você nunca pode contar com suas galinhas até que choquem (traduzi literalmente mas acho que fez sentido; a outra opção seria uma expressão muito feia para colocar aqui no blog ;-). Tantas coisas podem mudar aqui e ali e tem muita conversa e promessas que nunca se concretizam. Isso me leva à loucura, mas por enquanto vamos continuar tentando, e desfrutando da experiência de viver nesse lugar muitas vezes louco. A vida é sobre desafios pessoais e este é certamente um deles para mim.”

FONTE: blog nossa vida na Nova Zelandia