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13 de abril de 2012

Tornei-me muçulmana por convicçao! Parte I

Finalmente a Marie Claire liberou a entrevista :D
Meu primeiro emprego foi aos 16 anos, a contragosto do meu pai — um militar machista e ciumento, que nunca deixou minha mãe trabalhar. De vez em quando me dava mesada, mas eu queria ter independência financeira e fazer uma poupancinha. Sempre fui obstinada e dedicada. Até terminar a faculdade, trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Durante o fim da adolescência e começo da vida adulta, quase não pensava em namorar e raramente ia para a balada atrás de algum paquera porque vivia cansada de tanto estudar e trabalhar.




Conheci o meu primeiro namorado por causa de uma foto. Eu tinha 18 anos e uma amiga em comum mostrou uma fotografia minha a um rapaz chamado Amaral. Ele quis me conhecer e ela deu meu telefone. Passamos três meses conversando até criarmos coragem para marcar um encontro. Foi amor à primeira vista. Ficamos dois anos juntos e foi com ele que perdi a virgindade, aos 19. Levei o rapaz uma vez à minha casa, mas meu pai, ciumento que é, não gostou dele. Para evitar confusão, passamos dois anos nos encontrando às escondidas. Ele me deixava na esquina para meu pai não vê-lo. Estava apaixonada e sonhava em me casar, mas ele não queria se casar antes de ter um bom emprego e uma casa. O namoro esfriou e nos separamos logo que passei no vestibular para administração de empresas.



Durante a faculdade, tive poucos relacionamentos. A maioria dos garotos não queria nada sério. Isso me desanimava a paquerar. Nessa época, comecei a trabalhar em um instituto de sustentabilidade e descobri minha vocação. Um ano depois de formada, tinha comprado meu apartamento, estava empregada na área de que gostava e satisfeita com a vida. Por causa do trabalho, me vi sozinha no feriado de Réveillon. Todos que conhecia estavam fora da cidade ou em algum programa familiar. Entediada, decidi ir passar a virada do ano vendo os shows na Avenida Paulista, em São Paulo, onde moro. No fundo, tinha o objetivo de encontrar um namorado naquela noite.



Vesti até uma saia vermelha para dar sorte e fui, meio receosa, meio animada. Encontrei um casal jovem no metrô e logo fiz amizade com eles. Durante a noite, acabei desistindo de encontrar um namorado e fiquei curtindo os shows. Quando voltávamos para o metrô, percebi que um rapaz estava me olhando. ‘Achei você muito bonita’, disse ele. Eu também tinha gostado dele e abri um sorriso. Ele se aproximou e disse que seu nome era Mohammad. Não dava para perceber que ele era estrangeiro pela aparência. Tinha um sotaque carregado, mas falava bem o português, pois vivia no Brasil havia quatro anos. Apresentou os amigos e contou que eram todos iranianos. Eu e minha nova amiga nos olhamos e falamos baixinho: ‘São homens-bomba’. Na época, tinha todos os preconceitos comuns em relação ao mundo árabe. Mesmo assim, não resisti quando ele pediu meu telefone. Ele me ligou e marcamos um encontro em um shopping. Ficamos conversando sobre nossas vidas e descobri que ele era xiita. Confesso que, na hora, não entendi direito o que aquilo significava. Mais tarde, fui saber que era a divisão do islã que concentra os grupos mais radicais, embora nem todos os xiitas sejam fanáticos. A família dele era do Irã e os tios moravam no Brasil. Por isso, Mohammad tinha vindo tentar a vida no país.



Nossa relação começou de forma leve e natural. Nunca senti que nos casaríamos, pois sabia que ele iria acabar com alguém da cultura dele. A relação era tão boa que continuei levando. Ele me falava do país dele, dos costumes, me ensinava a fazer comida iraniana, e eu ficava cada vez mais encantada com a maneira que ele via o mundo. Eu o via rezar voltado para Meca e achava a fé dele muito bonita. Foi quando comecei a estudar a cultura islâmica, sem ele saber. Queria saber tudo sobre o islã e a cultura do Irã. E o principal, queria entender como eram as mulheres iranianas, minhas rivais imaginárias.



Compreendi que, para os muçulmanos, os relacionamentos são mais sérios do que para os brasileiros. Conhecer alguém e envolver-se é algo que se faz com cuidado, diferentemente da nossa sociedade, na qual é comum flertar, ficar e, talvez, nunca mais falar com a pessoa. O sexo só aconteceu depois que fizemos um juramento. Uma espécie de ensaio para o casamento. Foi feito apenas entre nós dois, em árabe. Na época, nem sabia o que estava dizendo. Ele apenas ditou as palavras que eu teria de dizer. Repeti porque achei que aquilo era importante para ele. Ao contrário do que muitos imaginam, os xiitas podem ter relacionamentos antes do casamento. É como se fosse um noivado, um ensaio para saber se a vida a dois vai dar certo. Os muçulmanos sunitas não podem fazer isso. Quando se envolvem com alguém, já existe a intenção de se casar.



Mas essas eram coisas que eu só iria aprender depois. Naquele momento, estava apenas apaixonada por um homem lindo que me pediu para recitar algumas palavras em árabe. Foi quando ficamos juntos pela primeira vez, e foi mais uma experiência de descoberta mesmo — saber como era o sexo para cada um, uma vez que tínhamos diferenças de culturas. Não fiquei tensa. Agi com naturalidade e não me senti intimidada pelo fato de ele ser muçulmano. Senti que ele era menos atirado do que os brasileiros, que chegam rapidinho a etapa final da transa. Ele gostava das preliminares e fazia de tudo para me agradar. Quando o sexo acabava, me mimava. Fazia carinho no rosto, como se estivesse desenhando meus traços. E sempre cozinhava para mim nesses momentos.



Nessa época, ninguém da minha família se metia na minha vida. Apenas contei que estava namorando um iraniano. Nunca o levei em casa. O relacionamento com os tios dele era bem distante também, apesar de eles serem casados com brasileiras. Nossa vida era reservada, uma espécie de longa lua de mel. Eu pensava em me converter, mas ao mesmo tempo não queria ser mais uma brasileira que virou muçulmana para se casar. Foram seis meses de paixão até que Mohammad passou a falar em voltar ao país dele. Fiquei com medo do choque cultural que seria morar no Irã. Apesar de admirar cada vez mais a religião muçulmana, sabia a diferença entre religião e cultura. E também que a vida das mulheres no Irã não era fácil.

.TODOS OS CREDITOS PARA A REVISTA MARIE CLARIE BRASIL

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