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13 de abril de 2012

Tornei-me muçulmana por convicçao! Parte II

Finalmente a Marie Clarie liberou :D


Como a situação de imigrante dele não era legalizada, Mohammad acabou indo embora. Eu chorei muito, mas desde o início sabia que seria uma relação passageira. Mesmo separada dele, passei a me interessar mais pelo mundo árabe. Era como um passatempo, um hobby. Primeiro fui fazer aula de dança do ventre. Depois fiquei instigada com as músicas e decidi estudar árabe. Foi uma espécie de desintoxicação de muitos anos de renúncia a uma vida totalmente austera.




Passei a ter um grupo de amigos árabes e uma vida social mais intensa. Minha conversão aconteceu aos poucos. Primeiro parei de comer carne de porco. Depois passei a estudar o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. Eu me identificava com a ideia de um deus único sem imagens. Também percebi a imagem distorcida que temos do Islã. No Corão, está escrito que ninguém tem o direito de matar nem tirar a vida de outro. A ideia do homem-bomba, que inclusive eu tinha na cabeça, é fruto de grupos extremistas fanáticos, que colocam o nome de deus onde querem, uma minoria entre a comunidade muçulmana. Percebi que é uma religião que prega a igualdade entre os povos.



‘La Ilaha Ill’allah’, estava escrito no alto da primeira mesquista aonde fui. É um dos versos de início do Corão e significa: ‘Não há outro deus além de Alá’. Era uma mesquita sunita, onde vou até hoje. Tentei frequentar templos xiitas, mas, apesar do meu contato com Mohammad, eu me identifiquei mais com os sunitas, mesmo porque a comunidade islâmica do Brasil é, em sua maioria, sunita, o que facilita o contato e a aproximação com livros e a cultura.



Quando finalmente me converti, decidi adotar o hijab, o tão criticado véu. Também passei a usar roupas de manga longa que não deixam meus braços de fora e respeitar a tradição do recato do Islã. Significa ter toda uma postura de se preservar, mostrar pouco o corpo e se expor menos. Passei seis meses de véu, mas ouvi tantas críticas na rua que desisti de usá-lo no dia a dia. A gota d’água foi quando fui agredida verbalmente por um médico do trabalho porque vestia o hijab durante a consulta. Ele ficou revoltado quando soube que eu era brasileira e tinha me convertido. Chegou a gritar que eu não podia praticar uma religião tão diferente da minha cultura.



Lembrei do Corão, que nessas horas nos sugere manter a paz, e saí do consultório em silêncio. Até hoje fico perplexa com o número de pessoas que me perguntam por que me converti, como se eu tivesse escolhido viver em uma prisão por causa de um véu ou da forma de me vestir. Se eu fosse espírita ou evangélica ou praticasse uma religião africana, talvez fosse normal, mas vivo na pele todo o preconceito que existe contra o mundo muçulmano. Ironicamente, o insulto mais comum é o mesmo que pensei de Mohammad quando o vi: ‘mulher-bomba’.



Decidi voltar a usar o véu quando estiver mais preparada psicologicamente para lidar com essas agressões. Eu só coloco o hijab na mesquita, nos dias de oração e nas datas religiosas. Algumas amigas brasileiras também convertidas adotaram até o niqab, que é a roupa que cobre o corpo todo e deixa apenas o rosto de fora. Confesso que acho lindo e adoro me ver de véu. Ao contrário do que dizem, me sinto até mais bonita quando estou com a minha beleza semivelada. Mas ainda preciso preparar o meu interior para enfrentar o choque cultural de me assumir muçulmana no Brasil.



Os únicos que nunca me criticaram pela minha decisão foram meus parentes. Ao contrário. Meu pai adorou quando eu usei o véu pela primeira vez e também gosta das músicas. Ainda é algo muito novo, e acho que preciso estudar o Corão mais para compreender a religião que adotei. Só sei que sinto uma imensa paz interior quando rezo na mesquita, lado a lado com as outras mulheres, como manda a tradição. Penso que sou feliz. Apesar de ter sofrido um pouco no meu primeiro Ramadã, o mês de jejum onde não se pode comer nem beber nada durante o dia, estou conectada comigo mesma.



Um dia Mohammad soube que tinha me convertido e me escreveu do Irã, surpreso. No e-mail, perguntou se eu queria ir para o país dele. Adorei o contato e, apesar de ainda gostar um pouco dele, decidi me afastar. Meses depois ele me enviou uma mensagem de texto no celular e descobri que está no Brasil. Ainda não nos encontramos, fico apreensiva ao pensar em vê-lo. Fico feliz de ter realizado sonhos que tinha determinado para minha vida: meu apartamento e minha independência. Mas ainda carrego o velho sonhos de casar e ter filhos.



Um dia, na aula de religião, fui surpreendida por um rapaz que disse que me observava na mesquita e que queria um compromisso — o que significa o início de um casamento. Fiquei comovida, mas não entrei no Islã para encontrar marido, e só vou aceitar um casamento quanto meu coração bater por alguém. Apesar de seguir a religião muçulmana, ainda tenho minha cultura, na qual casar é por amor.



* todos os nomes foram trocados a pedido da entrevistada



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