BLOGGER TEMPLATES AND TWITTER BACKGROUNDS »

15 de abril de 2012

Brasil por um neozelandês - Living in Brasil – going the other way

Desde que chegamos aqui, é sempre comum os neozelandeses nos perguntarem porque deixamos o Brasil. E aqueles que já passaram férias lá, custam a entender o que nos fez deixar de um país tão bonito, com espírito constante de festa, com um clima quente, para virmos morar nesta ilha longe de tudo. Acontece que passar férias no Brasil é bem diferente de viver lá. Até mesmo brasileiros que moram aqui e passam férias no Brasil acabam criando uma ilusão de que tudo por lá é maravilhoso. Aqueles que decidem voltar baseados nesta ilusão, normalmente se arrependem.




Assim, achei muito legal ter conversado com o Rod Halliday, que é um neozelandês com uma história bem diferente da maioria. Ele conheceu a namorada brasileira aqui, e quando ela decidiu voltar para o Brasil, ele decidiu acompanhá-la. Mais uma história de amor muito bonita!



Encontrei o Rod em uma festa de amigos comuns quando ele veio passear aqui durante a copa de rugby. Achei muito interessante ouvir a opinião de um Kiwi que realmente se mudou para o Brasil para viver lá. E, como já era de se esperar, viver no Brasil tem sido um grande desafio para ele.



Eu pedi para ele escrever um post para mim e ele gentilmente aceitou colaborar com meu blog. Abaixo o texto dele já traduzido para o português. Depois a versão original em inglês.



“Tendo nascido Kiwi e sendo criado como tal, que ama o rugby e a uma bebedeira de vez em quando, nunca imaginei que me encontraria com uma menina bonita brasileira e acabaria vivendo no Brasil. Mas quando o amor toma conta do seu coração você nunca sabe exatamente onde você vai acabar na vida. De todos os brasileiros que conheci na Nova Zelândia eu estimo que cerca de 80% deles pretendem ficar na Nova Zelândia e começar uma vida nova. Mas eu acabei conhecendo alguém que estava entre os outros 20% que não querem ficar longe do Brasil. Então, no ano passado, fizemos as malas e viemos para o Brasil para criar uma nova vida. Eu deixei para trás meu próprio negócio, uma profissão e, claro, meus amigos e família.



Vivemos aqui por mais de um ano em uma cidade linda do litoral em Santa Catarina, que tem um clima fantástico. Eu gosto de meu churrasco semanal e eu estou aprendendo um novo idioma, o que sempre foi um dos meus objetivos na vida. O português é uma língua difícil, mas estou melhorando, dia após dia. Com certeza, não há melhor lugar para aprender uma língua do que no próprio país em que ela é o primeiro idioma. Embora o começo de vida em qualquer país novo seja sempre difícil, há um monte de coisas aqui no Brasil que fazem esse processo mais difícil e às vezes incrivelmente frustrante.



A primeira meta ao chegar em qualquer país novo, é encontrar alguma renda através de um emprego. Chegar no Brasil sem um monte de dinheiro foi um grande erro para nós. Apesar de termos um apartamento para viver (muita sorte), você ainda precisa comer e pagar as contas e encontrar um emprego aqui acabou por ser muito difícil. Minha companheira é uma profissional qualificada da área de saúde e após a aplicação para vários cargos públicos com um salário de mais ou menos R$1200/mês, ela continua desempregada depois de um ano e não recebeu uma única carta ou e-mail vinda de qualquer empregador informando que ela não havia sido escolhida. Um emprego na iniciativa privada, perto da costa bonita de 'Bombinhas', teve 200 candidatos e estava pagando o salário mínimo. Ela não entendeu, e se decepcionou ainda mais, quando descobriu que teria que pagar R$100 pelo “privilégio” de fazer um exame de 3 horas em um domingo de manhã. Tentar ganhar dinheiro é incrívelmente difícil aqui e eu cheguei à conclusão de que o Brasil é muito mais um país sobre "quem você conhece” e não tanto sobre "o que você conhece", como é na Nova Zelândia. O salário mínimo aqui no Brasil é ridiculamente baixo e é um insulto, especialmente para aqueles que têm alguma formação. Na maioria dos casos, o salário mínimo só permite que uma pessoa possa sobreviver se ela viver com seus pais.



A maioria das coisas boas que aconteceram para nós desde que chegamos no Brasil surgiram como resultado de conexões familiares, amigos ou colegas de trabalho. O Brasil é como uma teia de aranha grande e complicada que conecta uma enorme gama de pessoas, mas que é impossível de ver ou compreender. Para conseguir um bom trabalho em uma empresa privada, você realmente precisa fazer parte da “teia” correta. E para conseguir um bom trabalho no setor público, você precisa para estar no topo dos 2% de pessoas intelectuais já que todos os cargos no setor público são baseados em Concursos que aparecem apenas para testar o intelecto e conhecimentos gerais, em oposição à experiência, conhecimento técnico, habilidade de tomada de decisão, habilidades interpessoais ou outros atributos-chave que pode fazer alguém mais apropriado para um trabalho mais do que uma pessoa com conhecimento puramente acadêmico.



Então, da minha experiência aqui, eu vejo a grande maioria dos jovens caindo em um buraco de desesperança. Isso é estranho porque no Brasil é dada uma enorme importância ao grau de formação da pessoa, até mais do que na Nova Zelândia, e há muitos profissionais altamente qualificados aqui. Mas aonde estão os postos de trabalho e onde está o salário que reflete as qualificações que muitas pessoas possuem é o que eu me pergunto.



Dada esta situação, o problema maciço de crimes violentos no Brasil começa a fazer algum sentido para mim. Sem emprego e sem um sistema de bem-estar para à população para atender as necessidades básicas, as pessoas com famílias que não podem ter alimentos para si ou para seus filhos, naturalmente, vão sair e roubar. Eu faria o mesmo se eu estivesse em uma situação desesperada e tivesse uma família com fome em casa? Provavelmente! É um instinto básico de sobrevivência e e de proteção à sua família e em tempos de desespero assim, a moral e a consciência social saem pela janela. Adicione a isso os traficantes que vendem drogas para essas pessoas sem esperança e você tem um grande problema social. Assim sendo, você tem sempre que ter cuidado no Brasil. Eu aprendi a estar sempre atento ao que acontece à minha volta e nunca baixar a guarda. Isto pode ser muito cansativo e é algo que eu não costumava precisar fazer.



Acima de tudo, o que mais me decepciona no Brasil são as histórias sem fim de corrupção. Todas as noites assistindo o Jornal Nacional, é sempre a mesma coisa. A maioria das notícias são cheias de histórias de crime e corrupção e, como Kiwi eu não posso tolerar a injustiça ou abuso de poder que é o que está acontecendo em uma escala inacreditável no Brasil. De políticos, à policiais e prefeito, a corrupção é ilimitada.



Dê poder ou responsabilidade a alguém, combinado com acesso ao dinheiro, e a tentação de abusar dessa posição é vergonhosamente alta. Infelizmente, este país está tomado pelo câncer da corrupção ao mais alto nível e que parece impossível de ser eliminado. É muito difícil para mim, ouvir histórias de crime de colarinho branco na casa dos milhões de reais sendo cometidos diariamente, quando todos ao meu redor são pessoas lutando para pagar contas ou colocar comida na mesa.



O Brasil tem tanto potencial com o seu vasto território e recursos naturais abundantes, como petróleo, gás, açúcar, feijão e café; e tem a capacidade inata de ganhar muito dinheiro vendendo estes produtos para o mundo. O Brasil não é como alguns outros países onde não há recursos naturais para o comércio. Aqui tem muita coisa para fazer muito dinheiro. Por isso, não posso aceitar comentários que ouço de que o Brasil é pobre, ou se referindo a outros países, por exemplo, a Europa, como sendo tão rica. O Brasil é rico. Há também um monte de terra não utilizada disponível para pasto ou a produção de alimentos que ainda tem que ser aproveitada e isso não inclui áreas ecologicamente importantes. Fiquei sabendo recentemente que apenas 20% de terra disponível no Brasil está sendo utilizada para agricultura. E mesmo sendo este o caso, a Brasil recentemente subiu para a sexta maior economia do mundo e agora está acima da Grã-Bretanha. Quando esta notícia chegou ao Brasil, as pessoas ficaram muito orgulhosas de seu país. E com razão. Mas, apesar do Brasil estar rapidamente se tornando uma potência econômica no mundo, a distribuição de sua riqueza é o onde as coisas vão muito mal. Para o brasileiro da classe média, a vida ainda é difícil, os salários são espantosamente baixos, eles trabalham longas horas e os indíces de violência são muito altos.



É comum ouvir as pessoas aqui reclamando sobre a corrupção entre os políticos, dos altos impostos e da falta de planejamento de infra-estrutura. Eu estava em um churrasco no último fim de semana com as colegas de faculdade da minha namorada, conversando com duas pessoas que eu nunca tinha conhecido e não demorou muito para elas expressarem sua frustração com o sistema aqui no Brasil. “Não votem para os políticos corruptos ", eles comentaram, “e virá outro grupo de reformistas promissores que muitas vezes vêem a mesma oportunidade de ouro para roubar". Depois de ouvir isso, eu sempre pergunto então qual é a solução para o Brasil . E a resposta é sempre a mesma. "Não tem solução". A cultura é arraigada no sistema. É como um câncer terminal. Você pode tentar operar e cortá-lo, mas ele simplesmente continua voltando. A melhor resposta que me foi dada até agora é que foram os colonizadores Portugueses, 500 anos atrás, que trouxeram a mentalidade da corrupção que instalou-se no sistema político que existe até hoje.



Esta mentalidade e atitude também pode explicar a minha observação de que o número de regras e leis que devem ser obedecidas no Brasil é diretamente proporcional à quantidade de poder e dinheiro que você tem. Quanto mais dinheiro você tem, mais problemas você pode resolver na conversa ou comprar uma “solução”. Eu percebi que no Brasil, um monte de coisas (e funcionários) estão à venda. O cara dirigindo a 150km/hr na BR101 ou o cara que tenta cortar a fila na loteria. É tudo a mesma coisa para mim. Classe social é predominante aqui e é tudo baseado em torno do poder e dinheiro. A arrogância desse tipo de pessoas faz meu sangue ferver. Na Nova Zelândia, alguém que age como se fosse o dono do lugar ou age como alguém que se acha melhor ou mais importante que os outros, é imediatamente “cortado”. Esta aversão dos neozelandeses à pessoas que “se acham”, é chamado de "tall poppy syndrome" e é visto como um aspecto negativo da cultura da Nova Zelândia porque é prejudicial para o crescimento pessoal e empresarial. Mas pelo menos isso ajuda a eliminar atitudes baseadas em classes sociais. Talvez o Brasil precisasse de uma dose disso.



Costumo olhar para fora da janela do nosso apartamento para a cidade agitada e fico imaginando como algumas indústrias, setores e sistemas realmente funcionam. Com tanta desorganização, demora e atraso no mundo dos negócios, a corrupção e desonestidade, de algum modo as coisas ainda acontecem. É um sistema único, que tem uma forma única e, muitas vezes caótica de funcionar. Isto é Brasil. Ame-o ou o odeie, é deste jeito que as coisas são e é provável que sejam por um tempo muito longo. Se o resto do mundo pode fazer negócios com um sistema como este é algo questionável. Mas estou certo de que o mundo vai encontrar um caminho. O Brasil é muito importante para ser ignorado. Quando cheguei no Brasil eu estava ciente de que o Brasil estava crescendo, e procurei por oportunidades de negócios. Eu gastei literalmente centenas de horas pesquisando várias possibilidades desde exportação de café à exportação de cerveja, mas eu cheguei sempre à mesma conclusão de que, como um gringo que não conhece ninguém aqui, é muito difícil. Há muita corrupção, incerteza e eu não acho que haja igualdade de condições, quando se trata de negócios aqui. Você tem que estar conectado e se manter fora do caminho dos 'big boys'. Achei impossível montar um modelo financeiro confiável de todos os custos e retornos. Havia muitas incertezas e incógnitas para mim para tentar alguma coisa, e nos negócios, são as "incógnitas" que irão destruí-lo. A única maneira que eu consideraria um negócio aqui é se eu pudesse encontrar uma pessoa bem relacionada em quem eu pudesse confiar 100%.



A grande maioria das pessoas aqui trabalham duro, muitas vezes fazendo longas horas e ganhando pouco. Mas, quando o trabalho termina, os brasileiros gostam de ver a família, socializar, tomar uma bebida e festar. Isto é o que eu gosto daqui. Os neozelandeses são um pouco “Ingleses” e um pouco chatos, enquanto que aqui parece que há mais brilho e vida nas pessoas. Talvez o calor tenha algo a ver com isso.



No geral, eu tenho a dizer que viver no Brasil é muito mais difícil do que eu pensava que seria. Se você está bem conectado com as pessoas em posições influentes e que têm dinheiro, a vida no Brasil pode ser muito boa, de fato. Se você não for, então boa sorte para você. Mas a experiência de viver aqui e entender a cultura da minha namorada tem sido muito boa para mim. Eu entendi agora de onde vêm muitas de suas idéias, atitudes e opiniões e isso nos ajudou a compreender melhor um ao outro.



Agora eu entendo porque ela nunca ficava animada sobre nada até que aquilo se tornasse real. É porque no Brasil você nunca pode contar com suas galinhas até que choquem (traduzi literalmente mas acho que fez sentido; a outra opção seria uma expressão muito feia para colocar aqui no blog ;-). Tantas coisas podem mudar aqui e ali e tem muita conversa e promessas que nunca se concretizam. Isso me leva à loucura, mas por enquanto vamos continuar tentando, e desfrutando da experiência de viver nesse lugar muitas vezes louco. A vida é sobre desafios pessoais e este é certamente um deles para mim.”

FONTE: blog nossa vida na Nova Zelandia







13 de abril de 2012

Tornei-me muçulmana por convicçao! Parte I

Finalmente a Marie Claire liberou a entrevista :D
Meu primeiro emprego foi aos 16 anos, a contragosto do meu pai — um militar machista e ciumento, que nunca deixou minha mãe trabalhar. De vez em quando me dava mesada, mas eu queria ter independência financeira e fazer uma poupancinha. Sempre fui obstinada e dedicada. Até terminar a faculdade, trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Durante o fim da adolescência e começo da vida adulta, quase não pensava em namorar e raramente ia para a balada atrás de algum paquera porque vivia cansada de tanto estudar e trabalhar.




Conheci o meu primeiro namorado por causa de uma foto. Eu tinha 18 anos e uma amiga em comum mostrou uma fotografia minha a um rapaz chamado Amaral. Ele quis me conhecer e ela deu meu telefone. Passamos três meses conversando até criarmos coragem para marcar um encontro. Foi amor à primeira vista. Ficamos dois anos juntos e foi com ele que perdi a virgindade, aos 19. Levei o rapaz uma vez à minha casa, mas meu pai, ciumento que é, não gostou dele. Para evitar confusão, passamos dois anos nos encontrando às escondidas. Ele me deixava na esquina para meu pai não vê-lo. Estava apaixonada e sonhava em me casar, mas ele não queria se casar antes de ter um bom emprego e uma casa. O namoro esfriou e nos separamos logo que passei no vestibular para administração de empresas.



Durante a faculdade, tive poucos relacionamentos. A maioria dos garotos não queria nada sério. Isso me desanimava a paquerar. Nessa época, comecei a trabalhar em um instituto de sustentabilidade e descobri minha vocação. Um ano depois de formada, tinha comprado meu apartamento, estava empregada na área de que gostava e satisfeita com a vida. Por causa do trabalho, me vi sozinha no feriado de Réveillon. Todos que conhecia estavam fora da cidade ou em algum programa familiar. Entediada, decidi ir passar a virada do ano vendo os shows na Avenida Paulista, em São Paulo, onde moro. No fundo, tinha o objetivo de encontrar um namorado naquela noite.



Vesti até uma saia vermelha para dar sorte e fui, meio receosa, meio animada. Encontrei um casal jovem no metrô e logo fiz amizade com eles. Durante a noite, acabei desistindo de encontrar um namorado e fiquei curtindo os shows. Quando voltávamos para o metrô, percebi que um rapaz estava me olhando. ‘Achei você muito bonita’, disse ele. Eu também tinha gostado dele e abri um sorriso. Ele se aproximou e disse que seu nome era Mohammad. Não dava para perceber que ele era estrangeiro pela aparência. Tinha um sotaque carregado, mas falava bem o português, pois vivia no Brasil havia quatro anos. Apresentou os amigos e contou que eram todos iranianos. Eu e minha nova amiga nos olhamos e falamos baixinho: ‘São homens-bomba’. Na época, tinha todos os preconceitos comuns em relação ao mundo árabe. Mesmo assim, não resisti quando ele pediu meu telefone. Ele me ligou e marcamos um encontro em um shopping. Ficamos conversando sobre nossas vidas e descobri que ele era xiita. Confesso que, na hora, não entendi direito o que aquilo significava. Mais tarde, fui saber que era a divisão do islã que concentra os grupos mais radicais, embora nem todos os xiitas sejam fanáticos. A família dele era do Irã e os tios moravam no Brasil. Por isso, Mohammad tinha vindo tentar a vida no país.



Nossa relação começou de forma leve e natural. Nunca senti que nos casaríamos, pois sabia que ele iria acabar com alguém da cultura dele. A relação era tão boa que continuei levando. Ele me falava do país dele, dos costumes, me ensinava a fazer comida iraniana, e eu ficava cada vez mais encantada com a maneira que ele via o mundo. Eu o via rezar voltado para Meca e achava a fé dele muito bonita. Foi quando comecei a estudar a cultura islâmica, sem ele saber. Queria saber tudo sobre o islã e a cultura do Irã. E o principal, queria entender como eram as mulheres iranianas, minhas rivais imaginárias.



Compreendi que, para os muçulmanos, os relacionamentos são mais sérios do que para os brasileiros. Conhecer alguém e envolver-se é algo que se faz com cuidado, diferentemente da nossa sociedade, na qual é comum flertar, ficar e, talvez, nunca mais falar com a pessoa. O sexo só aconteceu depois que fizemos um juramento. Uma espécie de ensaio para o casamento. Foi feito apenas entre nós dois, em árabe. Na época, nem sabia o que estava dizendo. Ele apenas ditou as palavras que eu teria de dizer. Repeti porque achei que aquilo era importante para ele. Ao contrário do que muitos imaginam, os xiitas podem ter relacionamentos antes do casamento. É como se fosse um noivado, um ensaio para saber se a vida a dois vai dar certo. Os muçulmanos sunitas não podem fazer isso. Quando se envolvem com alguém, já existe a intenção de se casar.



Mas essas eram coisas que eu só iria aprender depois. Naquele momento, estava apenas apaixonada por um homem lindo que me pediu para recitar algumas palavras em árabe. Foi quando ficamos juntos pela primeira vez, e foi mais uma experiência de descoberta mesmo — saber como era o sexo para cada um, uma vez que tínhamos diferenças de culturas. Não fiquei tensa. Agi com naturalidade e não me senti intimidada pelo fato de ele ser muçulmano. Senti que ele era menos atirado do que os brasileiros, que chegam rapidinho a etapa final da transa. Ele gostava das preliminares e fazia de tudo para me agradar. Quando o sexo acabava, me mimava. Fazia carinho no rosto, como se estivesse desenhando meus traços. E sempre cozinhava para mim nesses momentos.



Nessa época, ninguém da minha família se metia na minha vida. Apenas contei que estava namorando um iraniano. Nunca o levei em casa. O relacionamento com os tios dele era bem distante também, apesar de eles serem casados com brasileiras. Nossa vida era reservada, uma espécie de longa lua de mel. Eu pensava em me converter, mas ao mesmo tempo não queria ser mais uma brasileira que virou muçulmana para se casar. Foram seis meses de paixão até que Mohammad passou a falar em voltar ao país dele. Fiquei com medo do choque cultural que seria morar no Irã. Apesar de admirar cada vez mais a religião muçulmana, sabia a diferença entre religião e cultura. E também que a vida das mulheres no Irã não era fácil.

.TODOS OS CREDITOS PARA A REVISTA MARIE CLARIE BRASIL

Tornei-me muçulmana por convicçao! Parte II

Finalmente a Marie Clarie liberou :D


Como a situação de imigrante dele não era legalizada, Mohammad acabou indo embora. Eu chorei muito, mas desde o início sabia que seria uma relação passageira. Mesmo separada dele, passei a me interessar mais pelo mundo árabe. Era como um passatempo, um hobby. Primeiro fui fazer aula de dança do ventre. Depois fiquei instigada com as músicas e decidi estudar árabe. Foi uma espécie de desintoxicação de muitos anos de renúncia a uma vida totalmente austera.




Passei a ter um grupo de amigos árabes e uma vida social mais intensa. Minha conversão aconteceu aos poucos. Primeiro parei de comer carne de porco. Depois passei a estudar o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. Eu me identificava com a ideia de um deus único sem imagens. Também percebi a imagem distorcida que temos do Islã. No Corão, está escrito que ninguém tem o direito de matar nem tirar a vida de outro. A ideia do homem-bomba, que inclusive eu tinha na cabeça, é fruto de grupos extremistas fanáticos, que colocam o nome de deus onde querem, uma minoria entre a comunidade muçulmana. Percebi que é uma religião que prega a igualdade entre os povos.



‘La Ilaha Ill’allah’, estava escrito no alto da primeira mesquista aonde fui. É um dos versos de início do Corão e significa: ‘Não há outro deus além de Alá’. Era uma mesquita sunita, onde vou até hoje. Tentei frequentar templos xiitas, mas, apesar do meu contato com Mohammad, eu me identifiquei mais com os sunitas, mesmo porque a comunidade islâmica do Brasil é, em sua maioria, sunita, o que facilita o contato e a aproximação com livros e a cultura.



Quando finalmente me converti, decidi adotar o hijab, o tão criticado véu. Também passei a usar roupas de manga longa que não deixam meus braços de fora e respeitar a tradição do recato do Islã. Significa ter toda uma postura de se preservar, mostrar pouco o corpo e se expor menos. Passei seis meses de véu, mas ouvi tantas críticas na rua que desisti de usá-lo no dia a dia. A gota d’água foi quando fui agredida verbalmente por um médico do trabalho porque vestia o hijab durante a consulta. Ele ficou revoltado quando soube que eu era brasileira e tinha me convertido. Chegou a gritar que eu não podia praticar uma religião tão diferente da minha cultura.



Lembrei do Corão, que nessas horas nos sugere manter a paz, e saí do consultório em silêncio. Até hoje fico perplexa com o número de pessoas que me perguntam por que me converti, como se eu tivesse escolhido viver em uma prisão por causa de um véu ou da forma de me vestir. Se eu fosse espírita ou evangélica ou praticasse uma religião africana, talvez fosse normal, mas vivo na pele todo o preconceito que existe contra o mundo muçulmano. Ironicamente, o insulto mais comum é o mesmo que pensei de Mohammad quando o vi: ‘mulher-bomba’.



Decidi voltar a usar o véu quando estiver mais preparada psicologicamente para lidar com essas agressões. Eu só coloco o hijab na mesquita, nos dias de oração e nas datas religiosas. Algumas amigas brasileiras também convertidas adotaram até o niqab, que é a roupa que cobre o corpo todo e deixa apenas o rosto de fora. Confesso que acho lindo e adoro me ver de véu. Ao contrário do que dizem, me sinto até mais bonita quando estou com a minha beleza semivelada. Mas ainda preciso preparar o meu interior para enfrentar o choque cultural de me assumir muçulmana no Brasil.



Os únicos que nunca me criticaram pela minha decisão foram meus parentes. Ao contrário. Meu pai adorou quando eu usei o véu pela primeira vez e também gosta das músicas. Ainda é algo muito novo, e acho que preciso estudar o Corão mais para compreender a religião que adotei. Só sei que sinto uma imensa paz interior quando rezo na mesquita, lado a lado com as outras mulheres, como manda a tradição. Penso que sou feliz. Apesar de ter sofrido um pouco no meu primeiro Ramadã, o mês de jejum onde não se pode comer nem beber nada durante o dia, estou conectada comigo mesma.



Um dia Mohammad soube que tinha me convertido e me escreveu do Irã, surpreso. No e-mail, perguntou se eu queria ir para o país dele. Adorei o contato e, apesar de ainda gostar um pouco dele, decidi me afastar. Meses depois ele me enviou uma mensagem de texto no celular e descobri que está no Brasil. Ainda não nos encontramos, fico apreensiva ao pensar em vê-lo. Fico feliz de ter realizado sonhos que tinha determinado para minha vida: meu apartamento e minha independência. Mas ainda carrego o velho sonhos de casar e ter filhos.



Um dia, na aula de religião, fui surpreendida por um rapaz que disse que me observava na mesquita e que queria um compromisso — o que significa o início de um casamento. Fiquei comovida, mas não entrei no Islã para encontrar marido, e só vou aceitar um casamento quanto meu coração bater por alguém. Apesar de seguir a religião muçulmana, ainda tenho minha cultura, na qual casar é por amor.



* todos os nomes foram trocados a pedido da entrevistada



10 de abril de 2012

Importante! Casamento com Depressão.

8 de abril de 2012

Quarto de casal

Algumas dicas para manter o equilibrio e a boa organizaçao.
Deve ser o melhor lugar de uma casa, um refúgio apaixonante e reservado para o descanso e a intimidade do casal. Faça desse ambiente um recanto especial com tecidos confortáveis e bonitos nas roupas de cama, tapetes, cortinas, capas de almofadas, toalhas. Decore-o com fotos do casal em momentos felizes e românticos, quadros ou esculturas de casais e objetos aos pares como velas, quadros e vasos com flores. Abuse das boas lembranças e de tudo o que significa e celebre o amor para o casal. Evite material de trabalho, computador, televisão, fotos da família e, principalmente, de "ex". Se não for possível se livrar dos aparelhos eletrônicos, retire-os da tomada ou esconda-os com um tecido durante a noite.




1 de abril de 2012

5 antibioticos mais tarde...

Depois de ter sido nocauteada 5 vezes pela mesma pneumonia, que chegou causando danos irreversiveis (graças a Deus, nao na minha saude) mas na minha faculdade me obrigando   a trancar/congelar matricula me fazendo adiar por mais um ano o inicio do curso. É preciso paciencia e esperança por que nem sempre as coisas acontecem conforme planejamos! Entao que agora acabo de tomar o 5 e espero que ultimo antibiotico. Foi difícil, doloroso, muitos momentos de lagrimas de desespero. Muitas vezes pensei que nao tinha força suficiente para sair dessa. Mas ainda bem que estava enganada. Se foi algum tipo de purificaçao? Eu espero que sim. E agora junto a força, a vontade de viver que tomei juntamete com cada medicamento e me sinto mais revigorada, mais sã para continuar a minha jornada e sempre agradecida  pelo maravilhoso dom da vida.