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25 de junho de 2010

Carta ao meu pai II. In memória

Pai,
Será que te lembras? Será que te corre no sangue a saudade imensa do que nao houve, será que nos teus
cabelos brancos, cresceram arestas de arrependimento? Eu ainda nao sei se ja te perdoei, nas lágrimas
que chorei, nos medos com que lutei. E depois penso, como teria sido nossa vida se você me tivesse chamado "filha". Será que tinha me agarrado a esse texto desnorteado que me transporta a ilusoes perdidas?Vou te contar um segredo, daqueles que os filhos contam para os pais por que sabem que serão guardados pra sempre, é a primeira vez que te escrevo, em todas as palavras que inventei, nunca houve lugar para ti, por te culpar pelos sonhos deixados de viver, de todos os caminhos que deixei de percorrer...por que os filhos tem de ter um pai, o ser humano precisa de referências pra se agarrar nas horas de solidão. Alcancei maturidade. Mas ainda não enterrei a mágoa. Queria que soubesse do meu estado de espírito. Sabe pai, geraste uma filha que carrega na alma versos de uma vida amarga...mas ao mesmo tempo deste-lhe de herança  força a seguir em frente, a vontade de desbravar terreno, de nunca se acomodar com as adversidades da vida. Esta força que me move tem que ser herança tua. Preciso acreditar nisto. Acreditarei sempre nisto!

*Não fui criada por ele, a última vez que nos falamos tinha eu uns 14 anos.  Ele faleceu  último dia 12/06/2010. No últimos mês tinha ido varias vezes na casa da minha avó pra saber noticias minhas,
pra mostrar a minha foto na carteira dele, pra levar os filhos a conhecer um pouco de mim. Deixou um bilhete pedindo que eu lhe ligasse. Mas eu nao me importei muito. Pensei que quando fosse ao Brasil iria
vê-lo!!!!!!!!
Pai,